Devocional
O caso de Ceuta e a mulher cananeia
Voz gerada por IA · Onyx · Old-Timey
“Então chegou ela e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me! Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.” Mateus 15:25-27
Nos últimos dias, imagens impressionantes da cidade espanhola de Ceuta correram o mundo.
Ceuta é um território espanhol localizado no norte da África, junto à fronteira com o Marrocos. Em poucas horas, dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira por terra ou pelo mar, algumas enfrentando correntes marítimas, cercas e até o risco da morte para alcançar o território europeu.
Independentemente das opiniões políticas sobre imigração, existe nessa cena um drama humano que não pode ser ignorado.
Há pessoas que chegam às fronteiras carregando sonhos. Outras carregam fome. Algumas fogem de guerras, perseguições e violência. Outras procuram trabalho, segurança e condições melhores de vida.
A migração não é um fenômeno novo. Desde a Antiguidade, povos inteiros foram deslocados por guerras, invasões, escravidão e decisões de impérios. Daniel, por exemplo, foi levado de Judá para a Babilônia depois da conquista de Jerusalém.
Ainda hoje, milhões de pessoas vivem longe de suas casas por causa de conflitos, perseguições, desastres e pobreza extrema.
O estrangeiro vive uma situação peculiar.
Mesmo quando entra regularmente em outro país, pode enfrentar dificuldades com o idioma, a cultura, os serviços públicos e, principalmente, o preconceito.
Ele vive naquele território, mas sabe que não nasceu ali. Pode ser tolerado sem ser verdadeiramente recebido. Pode estar dentro das fronteiras e, ainda assim, sentir-se permanentemente do lado de fora.
Essa condição nos ajuda a compreender o encontro de Jesus com a mulher cananeia.
Existe, porém, um detalhe importante: Jesus havia se retirado para a região de Tiro e Sidom, território em que aquela mulher vivia. Geograficamente, portanto, Jesus era o visitante.
A mulher não era estrangeira em relação à terra.
Era estrangeira em relação às promessas da aliança.
Mateus a chama de cananeia. Marcos a apresenta como grega e siro-fenícia de origem. Ela não pertencia a Israel, o povo que havia recebido a Lei, os profetas, as alianças e as promessas messiânicas.
Espiritualmente, estava do lado de fora.
Paulo descreve a antiga condição dos gentios:
“Naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.”Efésios 2:12
A mulher sabia que não poderia aproximar-se do Messias de Israel exigindo os direitos de uma filha da aliança.
Por isso, sua primeira palavra não foi uma reivindicação. Foi um clamor:
“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”
Ela não apresentou currículo. Não enumerou boas obras. Não alegou merecimento. Não pediu justiça segundo seus méritos. Pediu misericórdia.
Sua filha estava terrivelmente atormentada, e aquela mãe carregava a dor da menina como se fosse sua.
Jesus, inicialmente, permaneceu em silêncio. Os discípulos ficaram incomodados com seus gritos.
Depois, Cristo declarou:
“Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.”
Ele estava afirmando a ordem histórica de sua missão. As promessas haviam sido entregues primeiro a Israel. O Messias era o Filho de Davi. O pão seria servido inicialmente aos filhos da aliança.
A mulher poderia ter ido embora. Poderia ter interpretado o silêncio como desprezo. Poderia ter transformado a aparente negativa em revolta. Mas permaneceu.
Aproximou-se. Prostrou-se. Adorou. E fez uma oração ainda mais curta:
“Senhor, socorre-me!”
Jesus então utilizou a imagem de uma casa:
“Não é bom pegar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.”
A resposta da mulher pode ser traduzida, em linguagem atual, mais ou menos assim:
“Eu sei que não sou cidadã de Israel. Sei que as promessas foram entregues primeiro ao teu povo. Não estou pedindo que retires dos filhos aquilo que lhes pertence. Mas também sei que existe tanta abundância em tua mesa que uma migalha é suficiente para salvar minha filha.”
Essa é uma das maiores declarações de fé dos Evangelhos. Ela não negou sua condição. Não escondeu sua origem. Não discutiu seus méritos.
Apenas confiou que a misericórdia de Cristo era maior do que sua distância espiritual.
A grandeza de sua fé não estava em pensar muito sobre si mesma.
Estava em pensar corretamente sobre Jesus.
Ela sabia que uma migalha da mesa de Cristo possuía mais poder do que todas as riquezas do mundo.
Uma migalha poderia libertar sua filha. Uma palavra poderia expulsar o demônio.
Uma ordem de Jesus poderia atravessar a distância entre aquele encontro e sua casa.
Foi então que Cristo declarou:
“Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas.”
E, naquela mesma hora, sua filha foi curada.
A mulher chegou como estrangeira às promessas.
Saiu como exemplo de fé para todas as gerações.
Chegou pedindo migalhas. Recebeu o elogio do próprio Cristo.
Chegou sem apresentar direitos. Voltou para casa tendo experimentado misericórdia.
As pessoas que atravessam fronteiras acreditam que existe do outro lado uma realidade melhor do que aquela que deixaram para trás.
A mulher cananeia também reconheceu que havia diante dela uma riqueza que não existia em nenhum outro lugar.
Mas não procurava um país desenvolvido. Não procurava hospitais, empregos ou proteção política.
Procurava o Rei.
Ela sabia que no Reino de Cristo havia aquilo que sua casa não podia produzir, sua cultura não podia oferecer e seus deuses não podiam conceder.
Havia libertação. Havia misericórdia. Havia vida.
Nós, gentios, também éramos estrangeiros às promessas. Estávamos longe. Sem Cristo.
Sem esperança. Sem Deus no mundo.
Por causa de Cristo, já não somos estrangeiros nem forasteiros. Somos concidadãos dos santos e membros da família de Deus.
Estamos neste mundo, mas não pertencemos a ele. E não vivemos aqui apenas como imigrantes tentando sobreviver.
Somos embaixadores do Reino.
Representamos o Rei Jesus e anunciamos aos que ainda estão longe que a porta foi aberta, o preço foi pago e existe lugar à mesa.
A mulher chegou como estrangeira.
A fé a conduziu até o Rei.
E a misericórdia lhe mostrou que, na casa de Deus, até quem estava longe pode ser trazido para perto.
Para refletir
- Minha oração costuma se apoiar em méritos ou na misericórdia de Cristo?
- Como reajo quando Deus parece silenciar por um tempo?
- O que a atitude da mulher cananeia ensina sobre perseverança e humildade?
- Tenho vivido como alguém que pertence à casa de Deus ou como quem ainda observa a mesa de longe?
Para pequenos grupos
- O que significa, na prática, clamar por misericórdia em vez de reivindicar direitos espirituais?
- Por que a perseverança da mulher cananeia é tão marcante no texto?
- Como esse episódio corrige uma visão orgulhosa da fé?
- De que maneira Efésios 2 ajuda a entender a condição dos que estavam longe das promessas?
- Como podemos anunciar a graça de Cristo aos que ainda se veem distantes de Deus?
Conversa
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